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Banco Master: taxas muito altas já eram sinal de problema? O que o caso ensina ao investidor de CDBs

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27/11/2025 - 07:23

Taxas muito acima do mercado e a dificuldade de captação anteciparam a crise do Master — e também ajudam a mostrar quais sinais o investidor deve observar antes de escolher um CDB.

 

O colapso do Banco Master não começou com a operação da Polícia Federal nem com a liquidação determinada pelo Banco Central. Antes disso, o mercado já vinha observando sinais de tensão, sobretudo em um dos produtos mais usados pelos brasileiros para investir suas economias: os Certificados de Depósito Bancário (CDBs).

 

  • O CDB é um investimento de renda fixa em que o investidor empresta dinheiro a um banco e, em troca, recebe juros sobre o valor aplicado. A rentabilidade pode ser pré-fixada (taxa definida no momento da aplicação) ou pós-fixada (atrelada a um indicador como o CDI).

 

Desde 2024, o volume financeiro dos CDBs cresceu 36%, ultrapassando a marca de R$ 1,1 trilhão, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

 

As taxas oferecidas pelo Master em seus CDBs chamavam atenção por oferecerem rentabilidade muito acima da média do mercado. Com remunerações que chegavam a 140% do CDI, esses papéis deveriam ser vistos como um sinal de alerta, não como oportunidade.

 

Especialistas ouvidos pelo g1 explicam como esses alertas surgiram, por que muitos investidores ignoraram os riscos e quais cuidados ajudam a evitar armadilhas semelhantes na hora de investir em um CDB.

 

O que os CDBs do Master revelavam?

 

Para entender o que chamou atenção no caso do Banco Master, vale olhar para o comportamento típico desse mercado. Bancos médios considerados saudáveis costumam remunerar seus CDBs na faixa de 110% a 120% do CDI. No entanto, as ofertas do Master avançaram muito além desse padrão.

 

Segundo Otávio Araújo, consultor sênior da Zero Markets Brasil, a escalada foi evidente. “Os CDBs do Banco Master já sinalizavam um risco bem acima da média quando chegaram a pagar até 140% do CDI.”

 

Araújo explica que esse tipo de “supertaxa” costuma indicar que o banco perdeu acesso às formas mais baratas de financiamento. Segundo ele, a escalada das taxas no Master não foi um movimento isolado, mas um sinal claro de que a situação financeira estava se deteriorando.

 

  • Depois que grandes instituições financeiras deixaram de emprestar ao Master, o banco passou a depender do investidor de varejo, oferecendo taxas cada vez mais agressivas para compensar o risco crescente.
  • Quando investidores tentaram vender seus CDBs antes do vencimento, a taxa oferecida pelo mercado saltou para 177% do CDI no mercado secundário (onde títulos já emitidos são comprados e vendidos entre investidores).
  • Essa disparada indicava um problema de liquidez: quanto menor o interesse dos compradores, maior precisa ser a remuneração para convencer alguém a assumir aquele papel — um sinal de que o mercado já enxergava risco elevado no banco.

 

Outro ponto importante era o próprio modelo de negócios do banco. O Master tinha grande parte dos seus recursos aplicada em ativos considerados ilíquidos — que não podem ser transformados rapidamente em dinheiro —, como carteiras “fabricadas” e precatórios. Isso limitava a capacidade de gerar caixa no curto prazo.

 

“A taxa de 140% do CDI não era generosidade. Era o preço de um risco que o mercado qualificado já não queria mais carregar”, afirma Araújo.

 

Como escolher CDBs de forma segura?

 

Para Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, o primeiro passo é olhar para o básico. “É importante consultar informações acessíveis a todos os investidores, como o rating de crédito do banco e indicadores como Índice de Basileia”.

 

  •  O rating de crédito é uma espécie de nota dada por agências especializadas para indicar o risco de uma instituição não honrar seus compromissos. Quanto melhor o rating, menor a chance de calote.
  • 📊 Já o Índice de Basileia mede quanto de capital próprio o banco tem para cobrir eventuais perdas. Ele funciona como um colchão de segurança: quanto maior o índice, mais protegido o banco está contra problemas e mais capacidade tem de emprestar sem comprometer sua estabilidade.

 

Ele lembra que é normal que bancos médios paguem mais do que os grandes para atrair recursos. O problema aparece quando essa diferença se amplia demais dentro do próprio segmento, um sinal de que o investidor deve redobrar a atenção.

 

Outro ponto, segundo Perri, é fazer uma pesquisa qualitativa: entender o histórico da instituição, verificar se há notícias sobre investigações e, sempre que possível, conversar com um profissional de confiança.

 

Fernando Gonçalves, especialista em investimentos e sócio da The Hill Capital, reforça que a análise da solidez do banco emissor do CDB é tão importante quanto a taxa oferecida.

 

Para ele, uma remuneração só pode ser considerada realmente atrativa quando vem acompanhada de um banco com fundamentos consistentes.

 

“Quando a taxa está muito acima da média, isso costuma sinalizar risco maior e exige atenção redobrada”, afirma.

 

Gonçalves recomenda observar fatores simples, mas decisivos: o porte da instituição, a forma como ela tem captado recursos e a velocidade de crescimento — especialmente no caso de bancos menores, onde mudanças no risco tendem a ser mais rápidas.

 

O prazo também importa. Em instituições de menor porte, ele sugere priorizar CDBs de vencimento mais curto, que limitam a exposição do investidor a variações bruscas na saúde financeira do emissor.

 

Como o investidor pode se proteger?

 

Embora a maioria dos investidores não acompanhe relatórios periódicos ou análises técnicas, há formas simples de identificar potenciais riscos no dia a dia.

 

Otávio Araújo, da Zero Markets Brasil, destaca alguns passos básicos que ajudam a reduzir a exposição a problemas:

 

  • Confirmar se o banco é autorizado e supervisionado pelo Banco Central;
  • Verificar se a instituição está coberta pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC);
  • Buscar notícias sobre investigações, operações policiais ou mudanças relevantes na gestão;
  • Comparar a taxa oferecida com a de outros bancos do mesmo porte.

 

Araújo lembra que o rating de crédito pode ser útil, mas não deve ser lido como garantia. O caso do Master mostrou que mesmo instituições com notas consideradas razoáveis podem enfrentar deterioração rápida.

 

Por isso, a recomendação é diversificar os emissores de CDBs e respeitar os limites de proteção do FGC de R$ 250 mil por instituição e R$ 1 milhão renováveis a cada quatro anos.

 

“Evitar a concentração excessiva em poucos bancos é crucial, porque essa conta pode aparecer depois na forma de falta de liquidez e judicialização. A pergunta que o investidor deveria se fazer é: por que só este banco precisa pagar tanto acima dos concorrentes para captar recursos?”, afirma.

 

CDBs do Master eram um esquema Ponzi?

 

A dinâmica apontada pela PF inevitavelmente remete a um esquema Ponzi. “É o comportamento típico”, afirma Luiz Perri, embora ele ressalte que o Master era um banco regulado e mantinha atividade econômica real.

 

  • 💸 Um esquema Ponzi funciona como uma pirâmide financeira: os supostos rendimentos vêm do dinheiro que entra com novos investidores, e não de uma atividade real de geração de lucro.

 

Fernando Gonçalves, por outro lado, faz uma distinção importante. Ele afirma que a lógica pode até lembrar um Ponzi, mas reforça que havia uma estrutura bancária formal por trás. “O problema central foi um desequilíbrio grave de liquidez, e não a ausência completa de atividade econômica.”

 

Já Araújo considera que houve uma “aproximação perigosa”, já que o Master teria dependido de captação crescente com taxas agressivas para manter a operação funcionando.

 

“Do ponto de vista econômico, quando o pagamento do passado passa a depender de captar recursos a qualquer custo no futuro, o mecanismo pode não se chamar Ponzi ao pé da letra, mas se comporta como tal na prática. As taxas de 140% do CDI eram um forte indicativo desse desequilíbrio.”

 

Fonte: G1

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